sábado, 27 de outubro de 2012

Tentando entender nulos, brancos e abstenções

Artigo publicado na Folha de São Paulo (25/10/2012)

Diversos analistas destacaram o crescimento das taxas da abstenção, votos em branco e nulos nas eleições municipais deste ano.
Alguns chegaram a somar as três taxas para mostrar que o número de eleitores que não votou em um dos candidatos chegou a ultrapassar a votação de nomes importantes. Por exemplo, na cidade de São Paulo o total de eleitores que não foi votar, anulou ou apertou a tecla "em branco" chegou a 2,49 milhões (31% do total), número superior à votação obtida por José Serra (1,88 milhões de votos), o candidato mais votado.
Como sempre acontece, o passo seguinte foi o de apresentar as razões para o crescimento do contingente de eleitores que não votou em nenhum dos partidos ou candidatos.
Os dados revelariam a insatisfação da população com os políticos, com a corrupção generalizada e com a obrigatoriedade do voto.
Com a divulgação dos resultados oficiais, é possível analisar os dados com mais cuidado.
Comecemos com a abstenção. Nas eleições de 2008, a taxa média de abstenção dos municípios brasileiros chegou a 12%. Neste ano, a média foi de 14%. Ou seja, o crescimento foi muito pequeno.
O que chama a atenção é a enorme variabilidade do comparecimento às urnas. O que explica que 18,5% dos paulistanos não tenham comparecido, enquanto que em Frei Paulo (Sergipe) a abstenção foi de apenas 4,5%?
A taxa de abstenção é influenciada por uma série de fatores, muitos deles não estão diretamente associados ao protesto político. Muitos cidadãos mudam de cidade, mas não se alistam em um novo domicílio. Há também a presteza da Justiça Eleitoral em retirar os mortos da listagem. Não é coincidência que cidades que fizeram um recadastramento completo do seu eleitorado tendem a ter uma taxa de abstenção muito menor.
Quanto aos votos nulos e em branco, é importante observar separadamente os dados das disputas para prefeituras dos das Câmaras Municipais. Nas eleições de 2012, a taxa média de votos em branco e nulos foi de 8,5% (prefeito) e 4,5% (vereador). Números praticamente idênticos aos valores das eleições de 2008: 9% (prefeito) e 5% (vereador). É interessante lembrar que em 2012 muitos candidatos considerados "ficha suja" mantiveram-se na disputa e tiveram seu votos contados como nulos.
Se por um lado há estabilidade, por outro o que chama a atenção é o alto contingente de brancos e nulos nas quatro maiores cidades do país. Os números são bem mais altos do que a média nacional.
Os percentuais foram significativos em São Paulo (19% para vereador; 13% para prefeito), Rio de Janeiro (17%; 14%), Belo Horizonte (17%; 15%) e Salvador (14%; 14%). O que intriga é que mesmo com eleições altamente disputadas para prefeito nestas cidades (a exceção é o Rio de Janeiro), mais de 10% dos eleitores que foram às urnas anularam e deixaram os votos em branco.
Estes números são realmente altos e precisam ser estudados com mais calma. Será que existe alguma diferença entre as áreas mais pobres e ricas das cidades? Por que mesmo com milhares de candidatos concorrendo às Câmaras Municipais nestas cidades, o total de eleitores que preferem anular ou deixar o voto em branco tem aumentado?
No quadro geral dos municípios brasileiros, não existem mudanças significativas quando comparamos o percentual de abstenção, brancos e nulos de 2012, com as eleições anteriores. Mas é preocupante que as taxas de votos brancos e nulos estejam tão altas (e tenham subido) em importantes cidades brasileiras. Pelo menos nestas cidades, os sinais de distanciamento dos eleitores em relação ao Legislativo são inequívocos.

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Os três gráficos abaixo apresentam a distribuição das taxas de abstenção, brancos e nulos para prefeito e vereador do primeiro turno nas eleições de 2012, segundo a renda per capta. Cada um dos pontos representa uma das cidades brasileiras. Para facilitar a visualização utilizei a escala logarítmica.

A questão fundamental é: Que fatores podem estar associados a intensa variação que pode ser observada nos três gráficos?

Gráfico 1: Percentual de abstenção, segundo a renda per capita do município.



Gráfico 2: Percentual de votos em branco e nulos para prefeito, segundo a renda per capita do município.



Gráfico 2: Percentual de votos em branco e nulos para vereador, segundo a renda per capita município.





quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Margem de erro nas pesquisas eleitorais

Todo a campanha é sempre tudo igual. As pesquisas começam e dou um jeito de escrever alguma coisa sobre a "margem de erro". Para manter a tradição, não custa lembrar:


1. As pesquisas por amostragem não foram inventadas para acertar um resultado "na mosca". Elas nos oferecem um intervalo no qual o dado encontrado na amostra, provavelmente, está na população. No lugar de  dizer: Celso Russomanno tem 27% dos votos; o mais correto seria dizer:  Russomanno está em algum lugar entre 24%  e 30% (com uma margem de erro de 3 pontos percentuais).
Não imagino os locutores da TV anunciando os resultados das pesquisas assim. Talvez, confundissem mais ainda. Mas para quem acompanha e estuda as pesquisas é fundamental não cair na tentação (muito comum) de acreditar que o candidato está realmente em 27%.


2. Aprendi que pesquisas por quota - como as feitas pelos institutos brasileiros - não deveriam apresentar a margem de erro, procedimento criado apenas para pesquisas aleatórias. Há anos estou atrás da justificativa estatística para que os institutos brasileiros continuem a empregar a margem de erro. Quem puder ajudar, eu agradeço.
Para quem quiser mais detalhes, leiam o texto, que não me canso de divulgar: "A falsidade da margem de erro nas pesquisas eleitorais baseadas em quotas", escrito pelos dos estatísticos José Ferreira de Carvalho e Cristiano Ferraz.

3. Pelo fato de as pesquisas lidarem com uma estimativa que está em um amplo intervalo, é um preciosismo divulgar os dados com casas decimais. Uma pesquisa divulgada hoje, por exemplo, diz que Humberto Costa está com 31,1% das preferências e Geraldo Júlio com 22,2%. Um caso de falsa precisão.

4.  Lembre-se que a margem de erro divulgada (em geral de 3 pontos) refere-se à máxima da pesquisa; ou seja, serve para o candidato com maior percentual. Na realidade, cada candidato tem uma margem de erro particular, segundo o percentual que ele obteve na pesquisa.
Em uma pesquisa probabilística (1.000 entrevistas) a margem de erro de um candidato com 32%, por exemplo, é de 2.9%. Já para um candidato com 8%,  a margem de erro é de 1,7%. 
De outro modo, um candidato com 2% poderia, com uma margem de erro de 3% estar com -1%! (de fato ela é de 1.1%). 

5. Nunca diga que um candidato subiu ou desceu entre duas pesquisas sem antes observar as margens de erro. Quase sempre as mudanças estão dentro da margem. A variação acentuada de uma pesquisa não são tão frequentes. Pelo menos, não antes que a campanha comece a mobilizar os eleitores. 

6. Em resumo: veja as pesquisas, se divirta, torça para seu candidato subir... E só.




quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Handbook de ciência política

A Editora Sage publicou no fim do ano passado a International Encyclopedia of Political Science. O trabalho coordenado pela IPSA é, até onde eu saiba, o mais ambicioso projeto do gênero. São oito volumes que totalizam 4.032 páginas. Por conta do preço (1095 dólares na Amazon, fora o valor da entrega), a coleção provavelmente só será adquirida por instituições. Não dá para pessoa física. Fui informado que a compra dá direito ao acesso à versão eletrônica.

Infelizmente ainda não pude manusear a enciclopédia. No site da Sage podemos apenas ler algumas páginas. Mas o índice e a lista de colaboradores é muito boa. Fiquei particularmente curioso com a longa lista de verbetes sobre métodos.

Colaborei com um pequeno verbete: Elections, volatility. Fiquei particularmente feliz, pois em geral, brasileiros são convidados quase sempre para falar de temas ligados ao Brasil; ficando os tópicos de teoria e de métodos sob a responsabilidade de americanos e europeus.

Curiosamente, não sei sequer em qual volume o verbete foi publicado.

sábado, 4 de agosto de 2012

O Lugar das Câmaras Municipais


Artigo publicado no Valor Econômico (02/agosto/2012)

Resolvi me submeter a um teste. Convido o leitor a fazer o mesmo. Durante alguns minutos me dispus a escrever em um papel o nome de todos os vereadores da cidade onde resido (Rio de Janeiro). Lembrei de quatro nomes. Um deles estava errado; listei um vereador de muitos mandatos que não havia sido eleito em 2008. Sequer lembrava que a atual presidente do Flamengo é vereadora. Como acompanho a política municipal, fiquei desapontado com a minha performance. Mesmo que saiba que ela, provavelmente, é muito melhor do que a da maioria das pessoas.

O que aplacou a minha decepção é que já li algumas livros sobre a fragilidade da memória humana. Lembramos de coisas triviais e esquecemos de fatos fundamentais. Esquecemos completamente de tópicos aos quais dedicamos horas estudando e mal conseguimos resumir o enredo de um livro meses depois que ele foi lido. Mas neste caso, não creio que estivesse diante de mais um exemplo de falha do meu sistema cognitivo. De fato, prestamos muito pouca atenção ao que acontece no legislativo, particularmente no âmbito municipal.

Não conheço pesquisas sistemáticas com a avaliação dos cidadãos sobre o trabalho realizado pelas câmaras de vereadores. Mas minha impressão é que o interesse pela atividade dos legislativos municipais é cada vez menor. Deixo mais duas perguntas para o leitor: Qual foi o projeto mais importante para a sua cidade votado na câmara dos vereadores durante esta legislatura? Você tem notícia de alguma proposição do Executivo que tenha sido rejeitada pelos vereadores de sua cidade? (um esclarecimento: não soube responder a nenhuma das duas questões).

As raras pesquisas feitas pelos cientistas sociais e as reportagens que volta e meia aparecem na imprensa convergem na descrição que fazem do trabalho das câmaras municipais. O Executivo tem o controle quase absoluto da "grande agenda", restando aos vereadores, quase sempre, o lugar da "pequena política": o trabalho de atendimento a segmentos específicos do eleitorado, as homenagens, as indicações ao Executivo, as leis de reduzido alcance. Claro que existem os vereadores dedicados às tarefas legislativas clássicas e à fiscalização do Executivo, mas eles são minoritários.

Quem tem dúvida a respeito do lugar da representação dos "pequenos interesses" no âmbito local basta aguardar o inicio do horário eleitoral gratuito. A cada eleição os candidatos parecem fazer apelos a clientelas mais específicas, se dispondo a representar interesses cada vez mais particulares. Aos tradicionais representantes de bairros e das corporações, se somaram os nomes ligado a todo tipo de ofício, de diferentes segmentos econômicos, esportivos e de identidade. É sintomático que raramente um candidato faça menção ao seu partido político durante o horário eleitoral.

Um trabalho cuidadoso pode nos ajudar a avaliar como as atribuições das Câmaras Municipais mudaram ao longo da história (é importante lembrar que, criadas ainda na Colônia, elas são as instituições mais antigas do sistema representativo brasileiro). Mas minha impressão é que o esvaziamento dos legislativos locais está associada ao quadro mais geral de fortalecimento do Executivo na política brasileira a partir de 1988. Particularmente nos municípios, este fortalecimento está associado ao lugar que as prefeituras passaram a desempenhar na implementação de políticas públicas na área de saúde, educação e assistência. Isso sem falar na dependência financeira que muitas delas passaram a ter em relação aos repasses de recursos federais.

Neste quadro de lento esvaziamento dos legislativos municipais, dois fatos chamam à atenção. O primeiro foi a aprovação, em 2009, de uma Emenda Constitucional que estabeleceu o número máximo de vereadores, segundo às população de cada cidade. Os legisladores se esmeraram e criaram 24 faixas diferente. Para cada uma delas foi definido um número máximo de vereadores; as cidades abaixo de 15 mil habitantes, por exemplo, podem ter no máximo nove vereadores. Cabe à Câmara Municipal definir o número de vereadores que a cidade terá. Não consegui obter os dados oficiais com o total de postos criados, mas de acordo com um levantamento preliminar feito no começo de julho, o número de novos vereadores chegava à 5.070. Claro que os impactos fiscais desta ampliação demorarão ainda mais para serem conhecidos.

Chama a atenção ainda o fato de as Câmaras Municipais praticamente não terem sido mencionadas nas intermináveis discussões sobre reforma política feitas ao longo da última década e meia no país. As diversas propostas de adoção de um novo sistema eleitoral, por exemplo, se concentraram exclusivamente na eleição de deputados federais. E sempre seguindo a premissa, ao meu ver, equivocada, de que o mesmo sistema eleitoral utilizado nas eleições para representantes nacionais deve ser replicado nos estados e municípios. Por que mesmo?

Não tenho nenhuma ilusão com relação a possibilidade de que se volte a falar de reforma do sistema eleitoral nos próximos anos. Mas apesar desta descrença, creio que é fundamental uma profunda discussão sobre os legislativos municipais. Entre os temas que merecem uma discussão aprofundada estão: a introdução de um novo sistema eleitoral (por exemplo, um sistema majoritário-distrital nos pequenos municípios e um sistema que combinasse distritos e representação proporcional nas maiores cidades); a simplificação do sistema bizantino para definição do número de vereadores de cada cidade (com suspensão da prerrogativa de as próprias Câmaras definirem o número de vereadores da cidade); a associação permanente (e explícita) entre os subsídios recebidos pelos vereadores e o tamanho da Câmara Municipal.
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quarta-feira, 25 de julho de 2012

Estatística e Futebol: Disputa por Pênaltis

Será que existem times realmente mais eficientes em converter e (ou) defender pênaltis? Ou quem sabe, trata-se mesmo de um fenômeno aleatório, em que as vitórias em uma disputa são anuladas por futuras derrotas? Afinal, não tem sempre um locutor a nos lembrar que "pênalti é loteria" ou que não existe muita diferença entre a disputa por pênaltis e um "cara-ou-coroa".

Sempre tive vontade de conhecer estatísticas sobre o desempenho dos times (e das seleções nacionais) nas disputas por pênaltis. Após a eliminação da seleção inglesa da Eurocopa 2012, o Guardian foi em busca de dados para ver se havia algo realmente singular com o desempenho da seleção nacional. As informações foram coletadas junto à FIFA, à Rec Sport Soccer Statistics Foundation e às confederações de futebol dos continentes. 

Embora os dados tenham sido coletados para fins jornalísticas e não possam ser considerados oficiais, eles oferecem um bom quadro do desempenho da seleções. Segundo o levantamento, 33 países participaram de alguma disputa por pênaltis. O Brasil, a Argentina e o México foram os países que mais participaram (10 vezes cada um).

Utilizei os dados do Guardian para montar os gráficos abaixo (aproveitei e atualizei os de Portugal e  Espanha após a partida pela Eurocopa).

É importante salientar que o desempenho das seleções com menos tradição deve ser visto com cuidado. Não só pelo fato de terem  disputado basicamente jogos pelos campeonatos continentais, mas também por razões estatísticas. Em geral, com um número de casos reduzido, os dados ficam mais vulneráveis a processos particulares. Pense, por exemplo, em uma seleção que participou de apenas uma disputa e marcou todos os gols, enquanto o time adversário perdeu dois pênaltis. Isso já bastaria para colocá-la no banco analisado como a melhor do planeta. 

O gráfico abaixo apresenta o percentual de pênaltis convertidos pelas seleções. A média de acertos é de 76%. Apenas a seleção da República Checa converteu todos os pênaltis (total de 20) que bateu. A seguir aparecem a Alemanha e a Dinamarca com 93% de acertos; a Alemanha converteu 26 das 28 penalidades que cobrou. O desempenho do Brasil se aproxima da média (75% de acertos); das 48 cobranças feitas por jogadores brasileiros, 36 foram convertidas. A Inglaterra tem o terceiro pior desempenho (apenas 66% de acertos); das 35 penalidades batidas, os ingleses perderam 12.


O gráfico abaixo mostra o percentual de penalidades cobradas contra cada equipe e que não entraram em gol; ou seja, foram para fora ou foram defendidas pelo goleiro. Para facilitar, elas foram chamadas de defendidas. A média é de 24%. A seleção mais eficiente em defender pênaltis é a dos Estados Unidos (não tenho a mínima desconfiança das razões): das 23 penalidades cobradas contra o país, 16 não entraram. Neste quesito, o Brasil está levemente melhor do que a média (33%  pênaltis defendidos); das 47 penalidade batidas contra o gol brasileiro, 15 não entraram.


O último gráfico apresenta a taxa de vitórias de cada seleção. A média é de 50%. Apenas duas seleções ganharam todas as disputas que participaram: a Arábia Saudita (4 vezes) e a República Checa (3 vezes). A Alemanha venceu 5 das 6 disputas que participou (83%). O Brasil e a Argentina venceram 6 das 10 vezes em que foram para os pênaltis. O fiasco inglês é inquestionável; o país perdeu 6 em 7 disputas.


Em resumo: melhor não ter que encarar os alemães nos pênaltis. E se os ingleses aparecerem é melhor acreditar na força dos números.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Pobreza nos Estados Unidos em Números

Na última década, jornais e revistas de todo o mundo passaram a utilizar os infográficos com mais frequência. Bons infográficos conseguem apresentar estatísticas e informações complexas de maneira atraente em termos gráficos, utilizando mapas, desenhos e símbolos. Uma pena que não sejam muito utilizados como forma de comunicação do trabalho acadêmico.

O infográfico abaixo, produzido pelo NPR (National Public Radio) dos Estados Unidos, é excelente. Ele mostra diversas dimensões da pobreza americana. Vale a pena ser visto com cuidado (com um clique no canto superior esquerdo ele é ampliado).  Segundo dados apresentados (2010), 46,2 milhões de americanos (15,1%) viveriam na pobreza; um aumento de 2,5 milhões em relação à 2009. 

As informações são apresentadas por segmento: famílias, gênero, criança e idade, raça e etnicidade, estados e evolução no tempo. A pobreza afeta mais as mulheres (29% mais probabilidade de serem pobres do que os homens) e também as famílias chefiadas por elas; a população não-branca e os estados do Sul. Impressionante é o dado de que uma em cada cinco crianças dos Estados Unidos vivem na pobreza.

Não tenho conhecimento de trabalho semelhante com dados sobre a pobreza no Brasil. Seria de enorme utilidade.



Poverty In The U.S. By The Numbers









domingo, 15 de julho de 2012

Renda e cor nos bairros do Rio de Janeiro

Acabei de receber alguns resultados do Censo de 2010, com dados da cidade do Rio de Janeiro. Por enquanto, obtive apenas a estatística da renda média (rendimento nominal médio mensal das pessoas com mais de 10 anos de idade) e da cor da população por bairro. Óbvio que fiquei curioso por saber em que medida estas duas variáveis estão associadas; por exemplo, será que existe alguma relação entre o percentual de população branca e a renda de um determinado bairro?

A cidade do Rio de Janeiro é composta por 160 bairros.  O bairro com menor renda média é a Mangueira (500 reais) e o com a maior renda média é a Lagoa (6.120 reais). 

A cor da população dos bairros também varia intensamente. Se tomarmos, por exemplo, o percentual de população branca, os bairros que aparecem nos extremos são os mesmos: a Mangueira tem o menor percentual de população branca (24,2%); no outra ponta aparece novamente a Lagoa, com 92,2% de população branca. 

O gráfico abaixo dispõe os bairros (cada uma das esferas) nestes dois eixos. Embora eu seja morador do Rio e sabedor da segmentação social que acompanha a sua história, não esperava encontrar uma associação tão avassaladora. Em termos estatísticos foi uma das mais intensas que lembro já ter visto (para quem gosta de estatística, o R2 da associação mostrada no gráfico é de 0,90).


Observe que a relação não é linear (aliás, fora dos livros de estatística, as relações puramente lineares não são tão comuns): a renda cresce até que o bairro tenha cerca de 60% - 70% de população branca. A partir deste patamar, a renda cresce intensamente quando se compara bairros com níveis semelhantes de população branca.  

Para facilitar a visualização coloquei apenas os nomes de alguns bairros. Chama a atenção o Cosme Velho (para quem não é do Rio, é o bairro onde fica sediado a subida do bondinho para o Cristo Redentor), com uma população branca muito menor do que a esperada. Talvez, o fato de o bairro ter um dos maiores contingentes de moradores em favela (40%) ajude a explicar esta discrepância.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Coligações para prefeito em 2012

A Folha de São Paulo (08/julho) apresentou um levantamento das coligações realizadas por 14 partidos em 85 cidades (capitais e as cidades com segundo turno). O resultado foi apresentado em um gráfico, que é reproduzido abaixo. Ele exige alguma atenção. Se quiser saber o total de cidades em que um partido apoiou os candidato a prefeito de outro, olhe na linha (horizontal); por exemplo, o PCdoB apoiou candidatos do PT em 19 cidades. Se quiser conhecer o apoio que cada partido recebeu, observe a coluna (vertical); por exemplo, o PCdoB obteve apoio do PT para seus candidatos a prefeito em três cidades.

Mas o leitor não deve fazer qualquer extrapolação sobre o sistema partidário a partir deste gráfico, pelas seguintes razões:
1. Ele apresenta somente o apoio de um partido aos candidatos à prefeitura de um outro partido. Sabemos em quantas cidades o PcdoB apoiou o PT, mas não sabemos em quantas cidades, o PT e PCdoB estiveram coligados apoiando um outro partido.
2. Ele não traz o número de cidades em que um partido não concorreu.
3. Ele não traz o número de cidades em que um partido concorreu sem fazer coligações.


Agreguei os valores da linha e da coluna para saber em quantas cidades os partidos estavam juntos. Selecionei as coligações finais dos cinco maiores partidos (PT, PMDB, PSDB, DEM e PSB) e do estreante PSD. Os partidos da base governista receberam a cor vermelha. Os que estão fora do governo (nem todos fazendo uma oposição aberta ao governo) receberam a cor azul.

Os partidos selecionados apoiaram candidatos de todos os outros (governistas ou oposicionistas no âmbito nacional). A exceção é a ausência de aliança entre o PT e o PSDB, e entre o DEM e o PcdoB. O que não deixa de ser interessante. Mas infelizmente, com estes dados não temos informações sobre possíveis alianças que estes partidos possam ter celebrado em apoio a terceiros.



domingo, 8 de julho de 2012

Qualidade da Democracia

Na década de 1990 alguns cientistas politicos chamaram a atenção para a importância de se estudar a "qualidade da democracia". A sugestão é que a agenda de pesquisas sobre regimes democráticos não deveria se concentrar apenas em aspectos formais das instituições democráticas, mas  também nos efeitos destas sobre o bem estar dos cidadãos. Alguns arranjos institucionais favoreceriam (ou nas palavras de Arend Lijphart, seriam mais generosos) com a representação de mulheres e minorias; outros garantiriam um maior controle dos eleitores sobre os representantes.

A minha impressão é que esta agenda perdeu força na ciência política nos últimos anos. Uma pena.
No caso brasileiro, temos uma série de aspectos que merecem ser discutidos da perspectiva da literatura da "qualidade da democracia": a sepultada discussão sobre o peso desigual do voto dos eleitores nas eleições para a Câmara dos Deputados e Senado; os custos das campanhas eleitorais; o papel das Câmaras Municipais;  a reduzida participação feminina nos partidos e no cargos públicos; a intervenção cada vez maior do Judiciário na vida partidária e eleitoral.

A Democratic Audit é uma organização britânica sediada na Universidade de Liverpool que tem como objetivo investigar a qualidade da democracia no Reino Unido. Eles acabaram de publicar um amplo relatório sobre o tema: How Democratic is the UK: the 2012 Audit. O relatório final é dividido em quatro grandes áreas: cidadania, leis e direitos; governo representativo e controle público; sociedade civil e participação popular; democracia além do estado (clique nos slides para ler cada um deles). Merece uma leitura cuidadosa.

O Democratic audit publicou ainda um documento mais breve e ilustrado (Executive Resume). Separei um dos gráficos deste documento, que mostra o declínio de filiação aos partidos britânicos ao longo da última década. Observe os milhares de filiados perdidos pelos dois maiores partidos britânicos (Conservador e Trabalhista):

domingo, 1 de julho de 2012

Como redigir um projeto de pesquisa

A segunda maior angustia de um estudante de pós-graduação é fazer o seu projeto de pesquisa. Não é mesmo tarefa simples passar de um tema de pesquisa (sorte quando o aluno já escolheu o seu) para a elaboração do projeto. Infelizmente, são raras as instituições que oferecem algum parâmetro para os estudantes do que deve constar de um projeto. Com isso, os alunos ficam dependentes do formato definido por seu orientador, ou, o que é pior, do seu próprio. 

Depois de participar de muitas bancas e orientações me dei conta que os projetos cometem  erros semelhantes. Um deles é a falta de equilibrio entre o espaço que é dedicado a falar do que os outros fizeram e o reduzido espaço dedicado a apresentar o que se quer fazer. Mas o principal deles é a seção de métodos (ou metodologia), que quase sempre se resume a poucas linhas que enumeram as técnicas que serão utilizadas para a coleta de dados.

Escrevi  um um pequeno texto Breve Roteiro para elaboração de um projeto de pesquisa para ajudar os meus alunos. Como existem poucos textos semelhantes publicados no Brasil, achei que ele poderia ser útil a outros estudantes.

É claro que o texto reflete a minha experiência (inclusive a de sofrer fazendo projetos) e a minha visão do que seja a "boa pesquisa". Por isso, certas passagens podem soar idiossincráticas para alguns colegas. Fazer o que.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

População em favelas na cidade do Rio de Janeiro

Uma característica conhecida da cidade do Rio de Janeiro é a presença de favelas (que o IBGE chama atualmente de aglomerados sub-normais) em todo o território;  embora  as comunidades localizadas na zona sul, onde estão os bairro de maior renda, sejam as mais conhecidas. 
O IBGE publicou um excelente relatório (Aglomerados Sub-normais: Primeiros Resultados) com dados do Censo de 2010. Nele é  possível encontrar dados da população residente em todas as favelas do país.

A cientista política Sonia Terron tabulou o total de moradores de favelas de cada bairro da cidade do Rio de Janeiro. Utililizei estes dados para fazer o mapa abaixo. Ele apresenta dois tipos de informação. Cada esfera representa o número absoluto de moradores de favelas no respectivo bairro; quanto maior a esfera, mais população residente em favelas. Em uma observação rápida, quatro grandes áreas se destacam: Maré, Complexo do Alemão, Rocinha e Jacarépagua. As três primeiras são antigas favelas, que foram recentemente transformadas em bairros. Em Jacarepaguá esta a comunidade de Rio das Pedras, uma das que mais creceu na última década.

A segunda informação apresentada no mapa está associada à cor de cada esfera. O percentual da população residente nas favelas foi dividida em cinco faixas: quanto mais forte a cor, maior o percentual des moradores em favelas no bairro. Infelizmente, não é possível identificar pelo nome os 160 bairros do Rio; identifiquei alguns apenas para ajudar o leitor, que conhece minimamente a cidade, a se localizar.

                   Mapa da População residente em favelas. Rio de Janeiro, 2010

terça-feira, 19 de junho de 2012

Blogs de ciência política

O leitor Rodrigo Martins sugeriu que apresentasse alguns blogs de ciência política que vale a pena serem visitados. Depois da sugestão, pensei muito, mas percebi que, das duas uma: ou os cientistas políticos não utilizam muito este canal de comunicação, ou eu não conheço os blogs feito pelos colegas.

Na verdade, visito muito mais blogs escritos por cientistas, estatísticos e jornalistas do que os elaborados pelos cientistas políticas. As minhas sugestões são as seguintes:

Andrew Gelman  Gelman é cientista político e estatístico. Professor da Universidade de Columbia. Polêmico e brilhante. Tem um estilo particular de comprar brigas e fazer provocações; por exemplo, recentemente, usou o adjetivo "horrible" para caracterizar um artigo do psicólogo Jonath Haidt. Algumas das postagens são muito técnicas e herméticas, outras, particularmente as críticicas metodológicas que faz as pesquisas alheias, muito instrutivas. Apresenta postagens novas praticamente todos os dias.

Monkey Cage Organizado por cinco cientistas políticos (entre eles Gelman) tem como propósito divulgar pesquisas de ciência política. Por isso, trata de temas mais canônicoa da disciplina. As postagens, em geral são escritas para grande audência, sem muitas tecnicalidades. O nome do blog é inspirado na deliciosa frase de H. L. Mencken: "Democracia é a arte de governar o circo da jaula dos macacos".

Josep Colomer Colomer é um cientista político catalão com ampla produção na área de política comparada e instituições representativas. Não escreve com muita regularidade, mas as postagens, particularmente as que faz análise de grandes temas de conjuntura, são muito boas.

FiveThirtyEight  Nate Silver,  o autor do blog não é um cientsita político, mas economista que começou a vida fazendo o que os americanos adoram: estatísticas de baseball. Nas eleições presidenciais de 2008 criou um blog especializado em fazer projeções eleitorais que virou uma sensação. O sucesso foi tanto que foi contratado pelo New York Times. Imperdível para quem gosta de estatísticas e eleições. Em tempo: 538 é o número de delegados no Colégio Eleitoral dos Estados Unidos.

Simon Schwartzman  Creio que é o blog mais regular escrito por um cientista social brasileiro. Especializado em políticas sociais, política científica e educação. Uma pena que não escreva muito sobre política. Abre espaço para boas discussões com colegas sobre temas polêmicos. Um exemplo de elegância; no estilo e na estética do blog.

Devem existir outros blogs excelentes escritos por cientistas políticos. Aceito sugestões.


sábado, 16 de junho de 2012

Mapa dos sistemas eleitorais usados nos países democráticos


Fiz um inventário dos sistemas eleitorais utilizados atualmente nos países democráticos.  Na realidade, países que realizaram recentemente eleições consideradas democráticas, segundo  o último relatório publicado pela instituto Freedom House (2011). Apenas retirei da lista os micro-países (com menos de 200 mil habitantes); quase todos pequenas ilhas do Caribe.
Que sistemas eleitorais estes 95 países utilizam para a escolha dos membros da Câmara dos Deputados (Câmara Baixa)? Segundo o levantamento, existem nove diferentes sistemas eleitorais em vigor. Dois tipos de representação proporcional (lista e STV); cinco modelos de  de representação majoritária (maioria simples, maioria de dois turnos e voto alternativo, SNTV e voto em bloco) e dois tipos de sistema misto (correção e paralelo). Detalhes sobre cada um deles podem ser encontrados na nova edição de Sistemas Eleitorais.
O sistema proporcional de lista é o mais utilizado no mundo (55 países); seguido pelo sistema de maioria simples em distritos de um representante (voto distrital), em vigor em 15 países.  Embora os sistemas mistos tenham se tornado uma opção "da moda"  no começo dos anos 1990, hoje eles são adotados em apenas 13 países (sete utilizam o misto de correção,  seis o misto paralelo). Os outros modelos são utilizados residualmente. Três países elegem deputados pelo modelo de dois turnos; dois utilizam o voto em bloco e um o SNTV.
O mapa abaixo apresenta a disposição dos sistemas eleitorais em vigor. Para facilitar a visualização trabalhei apenas com quatro categorias: proporcional de lista; voto distrital; sistemas mistos; e outros. O mapa deixa claro a opção que os países da América Latina e da Europa fizeram pelo sistema proporcional.


 Como a maioria dos países democráticos está concentrada na Europa, fiz um outro mapa olhando mais de perto este continente:


quarta-feira, 13 de junho de 2012

Visualização no Basômetro e no New York Times


Uma tecla na parte superior do basômetro permite que o leitor tenha acesso a outra forma de visualização. O caminho não é intuitivo. Procure a tecla por bancadas partidárias e acione a tecla por votação. A tela mostra o resultado final da votação de cada proposição legislativa por partido: pró-governo, contra o governo e abstenção. Faltou apenas mais uma coluna com os parlamentares de cada partidos que não compareceram para votar (em muitas votações o número de ausentes é expressivo).

Cada um dos quadrados da imagem representa um deputado. Se passar o mouse por cima deles você verá o nome dos parlamentares em ordem alfabética:



A tela é últil para observar com calma como os partidos votaram em uma determinada votação. Mas não é fácil saber como um parlamentar votou (sem contar que os ausentes não aparecerem na tela). E esta é justamente a curiosidade de muitos leitores: como o deputado X votou na votação Y? Neste caso, a melhor solução seria apresentar uma listagem com o voto de cada parlamentar.

Esta é a forma utilizada pelo New York Times para apresentar os dados das votações no Congresso dos Estados Unidos. A apresentação é organizada segundo cada uma das votações. Inicialmente aparece o resultado final  por partido; a seguir, um mapa interativo com o voto dos representantes de cada distrito; por fim, uma listagem com o voto de cada deputado. Dois filtros (por partido e por estado) permitem uma rápida mudança na lista de nomes.

Para quem quiser conhecer o equivalente do basômetro do Estado de São Paulo criado pelo New York Times vale uma visita ao Inside Congress.

O instrumento do New York Times não gera as sínteses que o basômetro produz (índice de governismo dos deputados e dos partidos). Seu obejetivo é simplesmente mostrar o resultado  final de cada votação. Mas ele é mais intuivo e menos sombrio (continuo em campanha contra o fundo preto do basômetro!).


segunda-feira, 11 de junho de 2012

O basômetro

O nome soa um pouco estranho: basômetro. Mas trata-se de um excelente instrumento para conhecer como os deputados federais e senadores comportaram-se nas votações nominais realizadas no Congresso durante o Governo Dilma. O basômetro mostra o grau de apoio dos parlamentares às proposições legislativas que interessam ao governo. Cada parlamentar (e partido) é avaliado segundo o percentual de vezes em que ele votou da mesma maneira que o líder do governo. Talvez chamá-lo de apoiômetro seria mais correto; mas o nome soaria ainda pior.

O basômetro foi criado por um grupo de jornalistastas do Estado de São Paulo. Diferente dos bancos de dados e dos gráficos tradicionais, que funcionam de forma estática,  o basômetro é um instrumento completamente interativo. E segue a tradição de instrumentos semelhantes criados pelos melhores jornais do mundo (particularmente o New York Times). É certamente a melhor  visualização dinâmica de dados já criada no Brasil.

O leitor pode conhecer o grau de apoio ao governo segundo quatro diferentes unidades de análise: o partido (coluna esquerda da imagem abaixo), o estado (coluna direita), o parlamentar (representado pelas pequenas bolinhas do gráfico) e as bancadas temáticas (ruralistas, ambientalstas e evangélicos). Quem apertar a tecla no canto inferior da imagem observará o posicionamento dos deputados em cada uma das votações; como eles mudam bastante, o que temos é uma verdadeira "dança das bolinhas" ao longo do tempo.



Para os estudiosos existe ainda a possibilidade de baixar os dados. Basta descer a página clicar e os dados são importados para o computador em uma planilha Excel.

Por todas estas razões o basômetro já consta da lista de predileitos da minha barra de navegação.
 
Mas depois de passar um bom tempo navegando no basômetro fiquei com a sensação de sua principal virtude (a possibilidade de obtenção de diferentes formas de dados) é também seu principal problema. Ele é um instrumento fantástico, mas não é simples. O leitor tem que lidar com muitas informações: entender o que são os percentuais, que as cores representam os partidos, que o movimento das telas refere-se a passagem de uma votação para outra. A opção de colocar tantas informações na mesma tela tornaram a navegação complexa e certamente reduzirá a abrangência do basômetro.

Um último comentário mais prosaico. Imagino que os criadores do basômetro tenham feito todos os testes com relação ao fundo de tela. Mas não creio que o fundo preto seja a melhor opção. Acredito que o fundo branco, por exemplo, poderia produzir uma visualização muito mais eficiente.

Em uma próxima postagem vou tratar de um tema que merece mais atenção: o papel das ausências no cálculo do índice de apoio usado pelo basômetro.

 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Sistemas Eleitorais (sexta edição)

Acabou de sair uma nova edição de Sistemas Eleitorais (FGV Editora), de minha autoria. Na realidade, é a terceira versão do livro (a primeira é de 1999,  e a segunda é de 2004); a editora  até recentemente contava como uma nova edição cada reimpressão do livro.

A nova versão do livro segue a estrutura das edições anteriores: com um capítulo dedicado aos sistemas majoritários, um sobre a representação proporcional, um terceiro dedicado aos sistemas mistos e um final que dimensiona os efeitos dos sistemas eleitorais. Mas o texto é muito diferente das versões anteriores. Procurei ser mais didático na explicação de aspectos mais complexos, particularmente na descrição do sistema de voto único transferível utilizado na Irlanda e dos sisemas mistos.


 Outra novidade é a presença de um glossário, que deve ajudar os leitores a memorizar os termos técnicos. No lugar dos 55 países da edição anterior, faço referência aos sistemas eleitorais utilizados em 95 democracias eleitorais (países que realizaram eleições livres recentemente segundo os critérios da Freedom House).

  O livro foi escrito pensando nos estudantes de graduação. Acho que ele pode ser discutido em quatro aulas (cada uma delas dedicatas a um dos capítulos).

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Da fragmentação à bipolarização

Coluna publicada hoje no O Estado de São Paulo

Um cientista político americano me confessou sua surpresa quando soube que 22 partidos elegeram deputados federais nas eleições brasileiras de 2010. A surpresa foi ainda maior quando soube que o PT, partido com mais cadeiras, elegeu apenas 88 deputados (17 %). Existem países com alta dispersão partidária, como Bélgica e Israel. Mas a Câmara dos Deputados brasileira é, atualmente, a mais fragmentada do mundo democrático.

Meu interlocutor não revelou, mas um fato torna ainda mais difícil de entender o sistema partidário no País: por que, com 27 partidos registrados há cinco eleições presidenciais, apenas 2 deles, o PT e o PSDB, disputam efetivamente a Presidência? Ou dito de outra maneira: por que temos o Legislativo mais disperso do planeta, e uma disputa presidencial tão concentrada?

As eleições de 2010 acentuaram uma tendência, que começou em meados da década de 1990, de bipolarização do sistema partidário brasileiro. Em um dos polos estão o PT e seus partidos satélites (PCdoB, PSB e PDT); de outro, o PSDB e os seus satélites (DEM e PPS). Esses dois polos organizam a vida administrativa e programática do País. Lembre-se que a regra de verticalização deixou de vigorar neste ano. Apesar disso, nos principais Estados a bipolarização nacional se reproduziu como nunca.

E os outros partidos? PMDB, PTB, PR e PP fazem parte do que chamarei, na falta de nome melhor, de centro-pragmático. São partidos com baixa intensidade ideológica, que participaram dos governos dos dois polos. Além disso, são partidos que se orientam fortemente para a vida política estadual.

Para muitos analistas, o PMDB saiu como o principal partido desta eleição, pois obteve a maior bancada no Senado, a segunda na Câmara dos Deputados e ainda elegeu, pela primeira vez pelo voto direto (Sarney também pertence ao partido), o vice-presidente.

É inegável a força do PMDB, mas existem alguns sinais de que o partido vem perdendo vitalidade no sistema partidário brasileiro. O PMDB elegeu apenas cinco governadores, um único em um dos grandes Estados da Federação (Rio de Janeiro). Em São Paulo, domicílio eleitoral do vice-presidente, o partido elegeu apenas um deputado federal.

Diversas lideranças históricas do partido ou foram derrotadas ou estão saindo da vida política: José Fogaça (RS), Iris Resende (GO), Geddel Vieira Lima (BA), Hélio Costa (MG) e Orestes Quércia (SP). O partido vive uma clara dificuldade de renovação. Quem são suas lideranças emergentes? Consigo pensar em apenas um nome: o do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral.

PSB. A composição da bancada dos partidos no Congresso apresentou algumas pequenas alterações em 2010. Gostaria de destacar três delas. A primeira é o crescimento do PSB. O partido é a única legenda que vem crescendo sistematicamente no País, notadamente no Nordeste, onde elegeu cinco dos nove governadores. O PSB deslocou o PMDB como principal força do campo progressista na região.

A segunda alteração digna de nota é o desempenho dos Democratas. O antigo PFL disputou a primeira eleição nacional (já havia disputado as municipais de 2008) com o novo nome, mas não conseguiu deter seu declínio eleitoral, que vem acontecendo desde 2002. O partido tem encolhido paulatinamente, particularmente no Nordeste e nos Estados do Sudeste.

Por fim, vale destacar o PV. O partido não conseguiu traduzir em representação no Legislativo o bom desempenho de sua candidata presidencial. A novidade, aqui, refere-se menos ao desempenho eleitoral e mais ao potencial de crescimento. O PV sempre foi nacionalmente um partido pragmático. A candidata Marina já deu sinais de que pretende dar um caráter mais programático ao PV, que o aproximaria da agenda ambientalista europeia.

Para analisar a configuração do sistema partidário brasileiro é fundamental entender que a fragmentação numérica não se traduz em fragmentação doutrinária. A polarização entre o PT e o PSDB, entre o governo e a oposição no plano federal é o que tem organizado a política brasileira. São dois grandes guarda-chuvas, com espaço para abrigar aqueles que, circunstancialmente, querem ser acolhidos.

Pensando nas transformações recentes do sistema partidário brasileiro lembrei-me do sistema de partidos da Itália desta década: alta fragmentação, mas com um alinhamento em dois grandes polos (esquerda e direita). Eleições presidenciais americanas, com uma bipolarização congressual italiana: uma combinação interessante.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Votação dos candidatos nos estados no segundo turno

Este ano, os canais de tv, sites, jornais e revistas se superaram na qualidade da apresentação dos dados das eleições. A qualidade dos mapas publicados na Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo é realmente excelente. Nada a dever a coberturas do gênero feitas pelo New York Times, Wall Street Jornal e jornais europeus.
Veja, por exemplo, este excelente instrumento de consulta disponível no site da Folha de São Paulo. Nele, você pode, em segundos, conhecer o resultado das eleições em todos os municípios brasileiros.
Os dados publicados pela imprensa sempre consideram apenas os votos válidos. É natural que assim seja, pois os nulos e brancos são sempre excluídos da apuração, por conta das regras eleitorais. Mas para a análise do comportamento eleitoral é importante considerar também os votos brancos e nulos.
Por esta razão, prepararei um gráfico, onde é possível observar, em uma mesma página, a evolução do segundo turno nos 26 estados e no Distrito Federal. Apenas excluí os votos nulos e brancos da tela para facilitar a visualização. Os estados foram ordenados segundo a população.

Percentual de Votos do PT e do PSDB nos estados. Segundo turno das eleições de 2002, 2006 e 2010.



É possível identificar alguns dados interessantes:

1. Quando comparado a Ackmin (2006), Serra obteve mais votos (em pontos percentuais) em 24 estados; manteve-se no mesmo patamar em dois (São Paulo e Mato Grosso do Sul) e diminuiu apenas em um (Rio Grande do Sul).

2. Quando comparada a Lula (2006), Dilma obteve menos votos (em termos percentuais) em 25 estados; e aumentou apenas em dois (Rio Grande do Sul e Pernambuco).

3. As eleições foram bastante competitivas (menos de 10 pontos de diferença) em 12 estados (São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Pará, Goiás, Espírito Santo, Mato Grosso, Distrito federal, Alagoas, Mato Grosso do Sul, Sergipe e Rondônia). Nos outros 15, um dos dois candidatos abriu uma grande diferença sobre o outro.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Números e Impressões

Coluna publicada hoje no O Estado de São Paulo

Analistas políticos passarão dias debruçados sobre os resultados eleitorais da disputa presidencial deste ano tentando encontrar recorrências e resultados inusitados. Poucas horas depois de encerradas as eleições, compartilho algumas observações que me chamaram a atenção:

1 As eleições do segundo turno de 2010 praticamente repetiram o padrão territorial que começou no primeiro turno de 2006, manteve-se no segundo turno de 2006 e no primeiro turno de 2010. Observe um mapa dos estados com a cor dos vitoriosos: o país ficou territorialmente dividido; a contiguidade das cores no território só não é perfeita por causa das vitórias de Serra no Espírito Santo e em Roraima.

2 A votação final de Dilma foi menor do que a obtida por Lula em 2006 em todas as regiões do país, com exceção da região Sul onde ela manteve o mesmo patamar de Lula em 2006: 44% dos votos. Dilma perdeu 4 pontos porcentuais no Centro-Oeste; 9 pontos no Norte; 6 pontos no Nordeste e 5 pontos no Sudeste. Ver gráfico:



3 Comparativamente à Alckmin em 2006, Serra cresceu em quatro regiões: 3 pontos porcentuais no Centro-Oeste (onde o PSDB passou a vencer); 9 pontos no Norte; 3 pontos no Sudeste. Na região Sul, Serra obteve (51%) e repetiu a votação de Alckmin em 2006 (50%).

4 A diferença entre PT e PSDB na região Sudeste vem se reduzindo desde 2002: 25 pontos em 2002, 12 pontos e 2006 e 4 pontos em 2010.

5 As eleições foram muito disputadas na região Sul (diferença de 6 pontos); Centro-Oeste (diferença de 2 pontos) e Sudeste (diferença de 4 pontos). A vantagem de Dilma deveu-se à diferença obtida no Nordeste (38 pontos) e Norte (15 pontos).

6 Dilma perdeu, no total, em 11 estados. Nunca um presidente eleito perdeu em tantos estados.

7 Se considerarmos os votos brancos e nulos, a votação de Serra (41%) não é muito inferior à obtida por Fernando Henrique em 1994 ( 44%) e 1998 (43%).

8 Apesar de muita especulação sobre os eventuais efeitos do feriado, a abstenção seguiu o padrão de eleições anteriores e cresceu levemente em relação ao primeiro turno; passou de 18% para 21%.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Abstenção, Nulos e Brancos

Coluna de hoje no O Estado de São Paulo:

Nos últimos dias, tenho lido muitas declarações de dirigentes das campanhas preocupados com os eventuais efeitos da abstenção e dos nulos e em branco sobre os resultados do segundo turno. As informações que circulam são desencontradas, e a maior parte delas, não corresponde aos fatos. Para esclarecer ao leitor, segue m algumas informações sobre o tema.

1. A abstenção no primeiro turno foi de 18%. Valor semelhante ao das duas últimas eleições presidenciais: 2002 (18%) e 2006 (17%).

2. A abstenção subiu em todas as disputas do segundo turno nas eleições presidenciais, comparativamente ao primeiro turno: passou de 12% para 14% em 1989; de 18% para 21% em 2002 e de 17% para 20 % em 2006.

3. Nas eleições de 2010 a variação da taxa de abstenção entre as regiões, estados e municípios foi muito menor do que em eleições anteriores. Mas alguns padrões permaneceram: a abstenção é sempre menor na região Sul e maior nas regiões Norte e Nordeste, sobretudo nas cidades menores (ver gráfico).




4. Existem muitas evidências de que uma parte da abstenção deve-se a problemas com o cadastro e não são fruto de ação deliberada dos eleitores para não comparecerem. Nas eleições deste ano, houve um recadastramento dos eleitores de 57 cidades que utilizaram o voto biométrico. A média de abstenção nestas cidades foi de 10%, bem menor do que a do pais (18%).

5. Não há como prever o impacto do feriado sobre o crescimento da abstenção no segundo turno. Nas eleições para prefeitura do Rio de Janeiro em 2008 - que aconteceu no meio de um feriado prolongado - a abstenção passou de 18% para 20%. Curiosamente, o maior crescimento (em pontos porcentuais) da abstenção entre os dois turnos, aconteceu em áreas mais pobres da cidade, e não nas áreas de renda média e alta.

6. Temos o hábito de somar os votos em branco e os nulos. Mas eles têm padrões muito diferenciados no pais. Nas eleições presidenciais deste ano a taxa de votos em branco foi de 3% e a de nulos foi o dobro, (6%).

7. A taxa de votos nulos e em branco caiu em todas as disputas de segundo turno nas eleições presidenciais: de 7% para 6% em 1989, de 10% para 6% em 2002; de 8% para 6% em 2006.

8. Coincidentemente, o total de votos nulos e em branco em todas as disputas presidenciais no segundo turno foi 6%. Em números absolutos, o aumento da abstenção acaba sendo compensado pelo declínio dos votos anulados.

9. Os votos em branco se distribuem de maneira homogênea pelo país (ver gráfico). Não há diferenças relevantes por renda/escolaridade do município, nem localização no território. Os estados com taxas mais altas tiveram apenas 4% de votos em branco.

10. Os votos nulos têm padrões muito diferenciados. A taxa tende a ser mais alta nos municípios mais pobres e com mais analfabetos, sobretudo do Nordeste. Nas cidades menores (até 50 mil habitantes) do Nordeste o total de votos anulados foi de 10% (ver gráfico).

11. As cidades com mais taxa de votos nulos do Nordeste são redutos da Dilma. Mas em termos absolutos as perdas da candidata do PT foi muito pequena. Se as menores cidades nordestinas tivessem o mesmo patamar de votos nulos de todo o pais (6%), e se os votos dos eleitores que anularam tivessem a mesma distribuição da de outros eleitores de suas cidades, Dilma teria recebido 112 mil votos a mais, em relação aos seus adversários.

12. Na ponta do lápis, os efeitos da abstenção e dos votos nulos e em branco sobre o resultado final do segundo turno das eleições de 1989, 2002 e 2006 foi ínfimo. Não há razão para acreditar que este ano será muito diferente.

sábado, 23 de outubro de 2010

O significado dos votos nulos

Os estudiosos das eleições têm por hábito somar os votos nulos e em brancos. Afinal, eles não tem serventia para eleições proporcionais (eles são excluídos para o cálculo do quociente eleitoral) e das majoritárias (elas são desconsideradas para saber se haverá ou não o segundo turno).
Pelo menos na disputa para presidente deste ano, os votos nulos e brancos mostraram padrões muito diferenciados.
O gráfico abaixo separa o percentual de brancos e nulos por região e população dos municípios (quatro faixas) para presidente em 2010.
A taxa de votos em branco é em média de 3% e praticamente não varia quando observamos as regiões e o tamanho dos municípios.
Os votos nulos também quase não variam em quatro das cinco regiões do país. O que chama a atenção é a alta taxa de votos nulos nas pequenas cidades do Nordeste (até 100 mil habitantes).
Uma hipótese é que os eleitores de baixa renda e escolaridade teriam mais dificuldade de votar na urna eletrônica. Assim, o voto nulo seria fruto do erro na hora de votar e não da ação deliberada do eleitor (nulo por protesto).
É bom lembrar que os eleitores de baixa escolaridade estão concentrados justamente nas pequenas cidades do Nordeste.



O cientista político Vitor Peixoto me enviou um gráfico que reforça a hipótese de associação entre situação social do município e votos nulos. O gráfico correlaciona o percentual de votos nulos com a taxa de analfabetismo de pessoas com mais de 15 anos (2006). A associação é forte, aliás ela apresenta valores que não são facilmente encontrados nas pesquisas de ciências sociais. Observe abaixo:

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Dilma e Serra em Minas Gerais

Em uma postagem anterior, apresentei a evolução dos votos em Minas Gerais em cinco eleições presidenciais. Os mapas mostravam a crescente votação do candidato do PT (sempre Lula).
O mapa abaixo apresenta os resultados da disputa presidencial (diferença da votação em pontos percentuais entre Dilma e Serra) deste ano. No cálculo da votação, considerei o total de votos dados (inclusive brancos e nulos), não apenas os votos válidos.
A intensidade das cores revela uma maior diferença para um dos lados: quanto mais forte o tom laranja, mais votos para Dilma no município; quanto mais azul, mais votos para Serra.
Estes dados não indicam necessariamente a vitória de um dos dois no município (em algumas cidades, eventualmente Marina pode ter vencido), mas dizem respeito a diferença entre eles.
As esferas são proporcionais à população do município sobre a população total do estado. Não coloquei a legenda com os nomes, para não prejudicara a visualização.



Minha impressão é que o padrão de 2010 repete o de 2006; Dilma abre vantagem em todas as regiões do estado, mas existe um corredor azul que corta o mapa a partir do Sul que é pró-Serra, e já podia ser visto em 2006.

sábado, 16 de outubro de 2010

Renda dos municípios e disputa presidencial

As eleições de 2006 e 2010 têm muitos aspectos semelhantes. Um deles é a relação entre a renda dos municípios e a votação dos candidatos. Dilma e Lula obtiveram votações proporcionalmente maiores nos municípios mais pobres e mais reduzidas nas faixas de renda mais alta. A votação do PSDB é invertida: proporcionalmente menor nos municípios mais pobres e maior nos municípios mais ricos.
Dividi os municípios brasileiros em quatro faixas de renda per capita (baixa, média baixa, média alta e alta). As faixas foram obtidas segundo os quartis de renda per capita de 2000. Infelizmente, não temos dados mais recentes sobre renda, mas não creio que a atualização mude o padrão geral.
O gráfico abaixo compara a votação do primeiro turno dos seguintes candidatos: Lula (2006), Dilma (2010), Alckmin (2006), Serra (2006) e Marina (2010).
A semelhança entre a votação de Lula e Dilma é clara. O Mesmo acontece com o padrão Alckmin/Serra. Uma diferença importante é que Alckmin foi vitorioso nos municípios de renda mais alta, enquanto Serra não obteve o mesmo feito.
O padrão da votação de Marina é semelhante ao do PSDB: sobe à medida que sobe a renda do município.

Percentual de voto e renda per capita do município: Lula (2002), Dilma (2010), Alckmin (2006), Serra (2010) e Marina (2010)



Vale a pena chamar a atenção que a relação entre renda e voto não é linear, mas uma tendência geral da renda de município.
Para quem quiser observar a nuvem de distribuição dos municípios brasileiros criei os dois gráficos abaixo.
Nos dois casos, a melhor linha de ajuste não foi linear, mas logarítimica.

Percentual de votos dos candidatos (Lula e Alckmin) e renda per capita dos municípios (2006)




Percentual de votos dos candidatos (Dilma e Serra) e renda per capita dos municípios (2010)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Cinco eleições presidenciais nos estados

O conjunto de gráficos abaixo apresenta o percentual de votos obtidos pelos dois principais candidatos (PT e PSDB) nas cinco eleições presidenciais. Os votos obtidos por todos os demais candidatos foram agregados como "outros".

O primeiro gráfico mostra os dados dos estados da Região Nordeste. Observe a crescente votação de Lula na região, particularmente em 2002. Dilma é extremamente bem votada, mas com exceção de Alagoas, têm menos votos do que Lula obteve em 2006.

Percentual de voto dos Presidentes nos estados da Região Nordeste. Eleições de 1994, 1998, 2002, 2006 e 2010.



O segundo gráfico apresenta os dados das Regiões Norte e Centro-Oeste. Em uma postagem anterior revelei a minha surpresa com o fato de Serra ter vencido no Acre, mas quando observei os dados da série de eleições no estado fiquei ainda mais surpreso: Lula só venceu no Acre em 2002 (justamente contra Serra).
No mais, os estados e o Distrito Federal apresentam padrões muito variados. Vale observar o Amazonas, onde a votação de Lula e Dilma se aproxima do alto nível de votos obtidos pelos candidatos petistas nas três últimas eleições no Nordeste.

Percentual de voto dos Presidentes nos estados da Região Norte e Centro-Oeste. Eleições de 1994, 1998, 2002, 2006 e 2010.



O último gráfico traz a votação nas Regiões Sul e Sudeste. O PSDB venceu quatro, das cinco disputas, em três estados: Santa Catarina, São Paulo e Paraná. O PT venceu quatro vezes apenas no Rio Grande do Sul, mas outros estados têm apresentado vitória sistemática do partido nas três últimas eleições: Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo.
Em linhas gerais, três redutos do PSDB: São Paulo, Paraná e Santa Catarina; quatro redutos do PT: Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Percentual de voto dos Presidentes nos estados da Região Sudeste e Sul. Eleições de 1994, 1998, 2002, 2006 e 2010.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O que os clichês não explicam

Coluna publicada hoje no O Estado de São Paulo:

Todas as eleições criam interpretações que viram clichês para a posteridade. A eleição de 1989 foi a da renovação, da crise da elite política tradicional; a de 1994 foi a eleição do Plano Real; a de 1998 foi a da aposta na continuidade e dos benefícios da estabilidade da moeda; a de 2002 foi a da vitória da renovação e da aposta na agenda social de Lula e do PT; em 2006, houve o reconhecimento dos grandes ganhos sociais do governo Lula.

E as eleições de 2010? Até o fim de setembro, a interpretação-clichê já havia sido produzida e virou um mantra entre os analistas: o governo Lula, com 80% de aprovação, transferiu sua popularidade para a candidata situacionista ao longo da campanha; as eleições de 2010 seriam a da reeleição de Lula por outras vias.

Mas bastou as urnas serem abertas e a vitória de Dilma no primeiro turno não ser confirmada, para uma busca frenética para novas explicações sobre os determinantes do voto no Brasil. A economia deu lugar à sociologia. O eleitor que votava com o bolso passou a ser, repentinamente, influenciado por temas como aborto, liberdades públicas, homossexualismo, crença (ou descrença) em Deus e denúncias sobre corrupção.

Nunca saberemos, ao certo, qual foi o peso da mobilização anti-Dilma nas duas semanas que antecederam as eleições. Infelizmente, não há como mensurar os efeitos de cada fator sobre a queda de Dilma. Será que admoestações de pastores e bispos realmente influenciam os eleitores? As denúncias do caso Erenice tiraram votos de Dilma na classe média? Ver vídeos do YouTube convence eleitores de alguma coisa?

Um caminho mais proveitoso é avaliar cuidadosamente o desempenho dos candidatos pelo território. Para isso, temos grande volumes de dados: por seção eleitoral, municípios e Estados. Uma mera observação da votação dos candidatos por Estado já revela dados interessantes.

Nas eleições presidenciais, os candidatos têm apresentado diferentes padrões de voto nos Estados. Mas, no primeiro turno de 2006, esse padrão assumiu contornos espaciais diferentes das eleições anteriores. Lula venceu na Região Norte e Nordeste, mas perdeu no Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Lula venceu em 16 Estados; Alckmin, em 10 Estados e no Distrito Federal.

Segundo pesquisas de opinião publicadas na primeira semana de setembro, Dilma liderava em todos os Estados. Mas depois que os votos foram apurados, os resultados deste ano acabaram por mostrar muita similaridades com os de 2006. Serra venceu em oito Estados, Dilma foi vitoriosa em 18 Estados e Marina venceu no Distrito Federal. Dilma venceu nos mesmos16 Estados em que Lula havia vencido em 2006 e, mais, no Rio Grande do Sul e Goiás. Ou seja, apenas três unidades da Federação não repetiram o mesmo partido vitorioso em 2006 e 2010.

As pesquisas de opinião revelam que os votos de Dilma e Serra têm diferentes bases sociais. Quando analisadas por escolaridade e renda o padrão de Dilma é uma pirâmide; seus votos são proporcionalmente mais altos nos estratos de mais baixa renda e escolaridade, e caem na medida em que sobem a renda e a escolaridade. O padrão de Serra é diametralmente inverso: maior nos estratos superiores e menor nos estratos inferiores.

Existe uma justaposição entre renda e escolaridade das pessoas e o território. Sabemos, por exemplo, que as faixas de mais baixa escolaridade e renda estão altamente concentradas na Região Nordeste. Dois mapas excelentes publicados pelo Estado, com a votação nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, mostraram que Dilma venceu nas regiões mais pobres das duas cidades, enquanto Serra foi vitorioso nas áreas de renda média e alta.

Ainda não temos dados sobre as divisões no interior de cada Estado e entre os bairros das cidades, mas a simples divisão de renda e escolaridade está longe de explicar o que aconteceu em 2006 e 2010.

Termino com mais uma pergunta: por que morar em certos Estados e regiões do País está fazendo tanta diferença na hora de votar?

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Os institutos de pesquisa e suas razões

Confesso que fiquei frustrado com as entrevistas dos dirigentes dos institutos de pesquisa que li na imprensa.
Nenhum reconhece que podem ter acontecido problemas de campo, na amostra, ou devido ao uso de quotas.
Sempre a explicação para os eventuais imprecisões se resume a três pontos:
- A existência uma onda de opinião publica incapaz de ser dimensionada. Esses institutos não fazem pesquisas diárias? Não tem estatísticos trabalhando? Não são capazes de simular, de modelar matematicamente a velocidade de subida dos candidatos?
- A abstenção maior em áreas pobres. Pode ter acontecido. Mas não vi evidências seguras para isso. E me ajudem: a boca-de-urna não é feita com quem foi votar? Neste caso, a abstenção já foi controlada.
- Os institutos acertam mais do que erram. Pode ser verdade. Mas precisamos de um inventário das pesquisas estaduais dos institutos para ver se isso aconteceu este ano.
O erro é uma premissa da pesquisa amostral. E o problema não é que se erre. O que me impressiona é que os institutos nunca estejam dispostos a discutir suas opções técnicas.
Pensando bem: não seriam os estatísticos dos institutos que deveriam estar dando as entrevistas? Onde eles estão?

Passada as eleições municipais de 2008 fiz um balanço das pesquisas de opinião em uma coluna que assinava na Veja.com.
Só hoje lembrei deles. Pode interessar a quem acompanha a discussão sobre o papel das pesquisas no Brasil.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Excelentes mapas com a distribuição de votos

Para quem gosta de mapas eleitorais recomendo visitar o material produzido pela esquipe de O Estado de São Paulo.
São os melhores mapas on-line com dados que já vi no Brasil.
Só não são perfeitos, por não permitirem digitar o nome da cidade para encontrá-la facilmente no mapa. Não é simples chegar às pequenas cidades
Por enquanto, eles apresentaram mapas do Brasil, do cidade de São Paulo e da cidade do Rio de Janeiro.

Impressões visuais:
- O mapa do Brasil de 2010 guarda semelhanças com o de 2006. Embora em tons menos claros do que o da disputa Lula vs. Alckmin.
- O mapa do Rio divide a cidade de maneira semelhante a das eleições municipais de 2008. Um bloco popular avermelhado na parte superior do mapa, área em que Eduardo Paes foi mais bem votado. E a área em azul e verde, onde Gabeira venceu naquela disputa.
- Não entendo da geografia de São Paulo, mas pelo que já vi em trabalhos de colegas, parece que houve uma reprodução da antiga clivagem social-territorial da cidade: nas àreas de renda mais baixa venceu a Dilma; nas de renda mais alta, venceu o Serra.
Aliás, nas duas maiores cidades existe indício que houve um forte divisão espacial/social do voto: áreas de renda média/alta votaram predominantemente para Serra, enquanto baixa renda, votaram majoritariamente para Dilma.

Difícil de entender

Coluna publicada hoje no O Estado de São Paulo

Depois de ouvir duas pessoas conversando sobre as estratégias dos partidos para o segundo turno nas eleições presidenciais, me dei conta de algo óbvio: o sistema de escolha para os cargos do Executivo (presidente, governador e prefeito) é muito mais inteligível do que o utilizado para eleger deputados.

Na disputa presidencial deste ano concorreram apenas nove candidatos, sendo que apenas três deles receberam destaque na cobertura feita pelos meios de comunicação. Todos obtiveram um tempo generoso para apresentar suas ideias no rádio e na televisão. Em poucos dias de campanha, os eleitores já tinham se deparado com um desses nomes em algum canal de informação.

Mesmo a regra de dois turnos já é amplamente compreendida pelo eleitorado. Em contraste, as regras da representação proporcional - sistema utilizado nas eleições de deputados - confundem até os jornalistas, como pude observar em diversas matérias nestes últimos dias.

Além das dificuldades de se entender como as cadeiras são distribuídas entre os candidatos, existe o desafio decorrente do grande número de partidos e candidatos que disputam as eleições no Brasil.

O horário eleitoral ajuda pouco nas disputas proporcionais. Por uma razão simples. Não há como garantir uma propaganda decente com o número de concorrentes a deputado. Uma divisão do tempo de rádio e TV pelos candidatos dará poucos segundos para cada um. Para oferecer um tempo per capita razoável, o horário eleitoral teria de durar meses.

Os candidatos e partidos têm feito o que podem para escapar a essa limitação. A estratégia dos partidos é concentrar o tempo em alguns nomes com mais capacidade de atrair votos (puxadores de legenda). Para tentar sobressair da maré de rostos, muitos candidatos têm apelado para a bizarrice. Depois dos tipos de 2010, não creio que seja possível inventar algo novo. Vimos de tudo.

A campanha eleitoral dura oficialmente 90 dias. Nesse período, o maior desafio dos candidatos é fazer os eleitores saberem de suas pretensões. Atualmente, as campanhas não podem mais usar outdoor, nem colocar cartazes em postes e viadutos, nem doar brindes (inclusive as tradicionais camisetas) para os eleitores. O que foi ótimo para controlar os gastos abusivos de campanha.

Além das placas nas casas, a legislação permite propaganda quando acompanhada de pessoas. O que deu ensejo uma nova e curiosa forma de utilização de propaganda, em que pessoas têm a tarefa de "vigiar", durante todo o dia, um cavalete com a foto, o nome e o número de um candidato; ou alternativamente, tremular uma bandeira com as mesmas informações.

Uma campanha ancorada na combinação de horário eleitoral, que tem atraído a atenção mais pelos tipos bizarros, do que pelos bons candidatos, com atividades de rua concentrada nos "homens-placa", está longe de ajudar a discutir os desafios legislativos do Pais.

Uma pesquisa feita um dia antes das eleições no Estado do Rio de Janeiro revelou que apenas 50% do eleitorado ainda não sabia em quem votar. Por isso, eu imaginava um crescimento significativo dos votos em branco e anulados.

Houve, de fato, um crescimento dos votos em branco e nulos na disputa para deputado federal, mas muito pequeno; eles passaram de 11% (2006) para 13%. Com exceção do Espírito Santo, o porcentual de nulos e brancos cresceu em todos os Estados. O que é difícil de saber é por que ele aconteceu de maneira tão variada. Em São Paulo, por exemplo, ele passou de 14,4 % para 15,8 %. Já no Ceará houve um aumento de 6,9% para 15%. O crescimento mais surpreendente foi em Sergipe, onde eles explodiram: passaram de 9,3% para 23%.

Percentual de votos inválidos (Nulos + Brancos) nas eleições para Câmara dos Deputados, por unidade da Federação. 2006 e 2010



Pelo menos na disputa para a Câmara dos Deputados os eleitores parecem não ter utilizado o voto em branco e nulo como instrumento maciço para expressar sua insatisfação com a política.

Sobre os nomes escolhidos pelos eleitores e as razões que moveram essas escolhas sabemos muito pouco. Confesso que sempre tive curiosidade para saber quem se beneficiou das escolhas feitas pelos 50% que escolheram o que fazer com o voto nos últimos dois dias de campanha. Minha impressão é que estes serão os primeiros a esquecer em quem votaram.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Os resultados das eleições presidenciais por estado (com brancos e nulos)

Os jornais publicaram, na edição de hoje, o resultado final das eleições. Todos eles apresentaram os votos válidos separadamente dos nulos e em branco. Afinal, são estes os dados que interessam para sabermos se haverá (ou não) o segundo turno.
Esta é a forma tradicional de apresentar estatísticas eleitorais. Mas vale a pena observar conjuntamente os votos dados aos candidatos e os deixados em branco e anulados. Assim, podemos analisar como todos os eleitores que compareceram se manifestaram.
O conjunto de gráficos abaixo apresenta os resultados das eleições presidenciais por estado. Para facilitar a consulta, os gráficos são apresentados em ordem alfabética. Também para facilitar a visualização, os votos dos candidatos que obtiveram votações reduzidas foram agregados.


Existem muitos resultados inesperados. Para mim, o maior deles foi a vitória de Serra no Acre, estado govenado elo PT e terra natal da Marina. Alguém tem pistas do que aconteceu?

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

As eleições presidenciais saíram da margem

Os resultados das eleições presidenciais de ontem foram surpreendentes. Sobretudo, para aqueles que, de maneira equivocada, interpretam os resultados das pesquisas como se elas fossem um instrumento de precisão suíça.
Todos os institutos erraram o resultado final. Erraram no que eles consideram como erro máximo das pesquisas (margem de erro). O Ibope errou mesmo a pesquisa de boca de urna, que entrevista os eleitores no dia das eleições. A pesquisa ouviu 4.300 eleitores (a margem de erro anunciada é de no máximo de 2 pontos percentuais); todos os candidatos chegaram fora dos limites definidos.
Os resultados que circularam das pesquisas presidenciais nos estados mostram resultados muito mais discrepantes ainda. Precisam ser analisados com cuidado.
O gráfico compara os resultados das urnas em votos válidos, com as últimas pesquisas nacionais do Datafolha, Vox Populli e Ibope anunciadas no sábado e a pesquisa de boca de urna, feita pelo Ibope. A margem de erro de todas as pesquisas foi de no máximo 2 de pontos percentuais.



Este erro coletivo dos resultados foi o maior já cometido pelos institutos no Brasil. A partir de hoje, vamos ouvir uma série de possíveis responsáveis: as chuvas, a taxa de abstenção, as ondas de opinião nunca captadas, os erros na hora de votar.
Em 1992, todos os institutos ingleses erraram o resultado das eleições. Apontaram vitória dos trabalhistas, mas John Major, do Partido Conservador, venceu por larga margem. Após as eleições, os institutos montaram uma força-tarefa de sociólogos, cientistas políticos e estatísticos para analisar cuidadosamente o que tinha acontecido.
O relatório dos pesquisadores apontou uma série de fatores: desde o “voto envergonhado”, que não se declarava sinceramente ao entrevistador, aos efeitos da abstenção. Uma das causas apontadas foi o uso da pesquisa por quota (usada por todos os institutos no Brasil). Desde então, os institutos ingleses abandonaram a pesquisa por quota.
Minha sugestão é que os institutos brasileiros façam o mesmo. Convoquem pesquisadores, estudiosos da opinião pública e estatísticos para um estudo detalhado sobre as razões dos erros desta eleição. Imprecisões de outras eleições sempre são justificados com a seguinte frase: “tivemos mais acertos do que erros”. E a vida segue.
A propósito, ouvi a seguinte pergunta de um amigo:”se os institutos erram as pesquisas na véspera e no dia das eleições, quem pode assegurar que eles acertem durante ?”. Fiz o que podia: silenciei.

As previsões das bancadas na Câmara dos Deputados

Em um postagem anterior critiquei a futorologia sem fundamento das previsões sobre as bancadas na Câmara dos Deputados.
Algumas delas previram que o PT elegeria 130 deputados. Outras, mais modestas, falaram em pelo menos 100 cadeiras para o PT e mesmo número para o PMDB. Também erraram.
Sugeri um método para impressionar os amigos: dizer que todos os partidos chegariam com mais ou menos 15 deputados em relação à bancada atual. Se você o utilizou, volte aos seus amigos e diga que você acertou a bancada de todos os partidos!