segunda-feira, 4 de outubro de 2010

As eleições presidenciais saíram da margem

Os resultados das eleições presidenciais de ontem foram surpreendentes. Sobretudo, para aqueles que, de maneira equivocada, interpretam os resultados das pesquisas como se elas fossem um instrumento de precisão suíça.
Todos os institutos erraram o resultado final. Erraram no que eles consideram como erro máximo das pesquisas (margem de erro). O Ibope errou mesmo a pesquisa de boca de urna, que entrevista os eleitores no dia das eleições. A pesquisa ouviu 4.300 eleitores (a margem de erro anunciada é de no máximo de 2 pontos percentuais); todos os candidatos chegaram fora dos limites definidos.
Os resultados que circularam das pesquisas presidenciais nos estados mostram resultados muito mais discrepantes ainda. Precisam ser analisados com cuidado.
O gráfico compara os resultados das urnas em votos válidos, com as últimas pesquisas nacionais do Datafolha, Vox Populli e Ibope anunciadas no sábado e a pesquisa de boca de urna, feita pelo Ibope. A margem de erro de todas as pesquisas foi de no máximo 2 de pontos percentuais.



Este erro coletivo dos resultados foi o maior já cometido pelos institutos no Brasil. A partir de hoje, vamos ouvir uma série de possíveis responsáveis: as chuvas, a taxa de abstenção, as ondas de opinião nunca captadas, os erros na hora de votar.
Em 1992, todos os institutos ingleses erraram o resultado das eleições. Apontaram vitória dos trabalhistas, mas John Major, do Partido Conservador, venceu por larga margem. Após as eleições, os institutos montaram uma força-tarefa de sociólogos, cientistas políticos e estatísticos para analisar cuidadosamente o que tinha acontecido.
O relatório dos pesquisadores apontou uma série de fatores: desde o “voto envergonhado”, que não se declarava sinceramente ao entrevistador, aos efeitos da abstenção. Uma das causas apontadas foi o uso da pesquisa por quota (usada por todos os institutos no Brasil). Desde então, os institutos ingleses abandonaram a pesquisa por quota.
Minha sugestão é que os institutos brasileiros façam o mesmo. Convoquem pesquisadores, estudiosos da opinião pública e estatísticos para um estudo detalhado sobre as razões dos erros desta eleição. Imprecisões de outras eleições sempre são justificados com a seguinte frase: “tivemos mais acertos do que erros”. E a vida segue.
A propósito, ouvi a seguinte pergunta de um amigo:”se os institutos erram as pesquisas na véspera e no dia das eleições, quem pode assegurar que eles acertem durante ?”. Fiz o que podia: silenciei.

As previsões das bancadas na Câmara dos Deputados

Em um postagem anterior critiquei a futorologia sem fundamento das previsões sobre as bancadas na Câmara dos Deputados.
Algumas delas previram que o PT elegeria 130 deputados. Outras, mais modestas, falaram em pelo menos 100 cadeiras para o PT e mesmo número para o PMDB. Também erraram.
Sugeri um método para impressionar os amigos: dizer que todos os partidos chegariam com mais ou menos 15 deputados em relação à bancada atual. Se você o utilizou, volte aos seus amigos e diga que você acertou a bancada de todos os partidos!

10 comentários:

  1. Rápido e certeiro, Jairo! Já está mais do que na hora dos institutos de pesquisa serem um pouco mais humildes e, melhor ainda, mais transparentes não só em relação aos seus métodos como também em relação aos principais financiadores das pesquisas que divulgam... abçs

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  2. Mandou bem, Jairo!!!

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  3. Jairo,

    Vale uma olhada nas pesquisas de boca de urna para as eleições estaduais. Ao que me parece, o IBOPE inverteu a antiga tendência de sobredimensionar os primeiros colocados. Foram os casos de Roraima, Minas Gerais, Pernambuco, Distrito Federal, Maranhão, Bahia, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Ainda que em alguns os resultados tenham caído dentro da margem, em todos ficaram acima do centro. Será que pode ser um viés sistemático?

    Abraços,

    Abraços,


    Vitor Peixoto

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  4. Jairo, boa tarde.
    É a primeira vez que visito seu blog, e gostei do que li até aqui - virei mais vezes!

    Na minha modesta opinião, como profissional de comunicação e relações-públicas, além da extinção da pesquisa por amostragem/cotas em eleições majoritárias, os institutos de pesquisa deveriam investir mais e menor em centros de pesquisa regionais ou estaduais, dependendo do perfil de cada área. Sei que é mais caro esse tipo de estratégia, mas acho que é uma mudança inevitável diante de uma Classe Média C que ninguém sabe ao certo como seu comporta - é preciso entendê-la melhor.

    Nesse campo do entendimento, os relacionamentos sociais das pessoas agora são cada vez mais importantes e afetam muito a opinião. Talvez a participação de profissionais de relações públicas também nesse processo de reavaliação dos institutos de pesquisa fizesse das pesquisas mais do que um instrumento de estatística mercadológica, um instrumento de percepção orgânica da sociedade.

    Abraço, Marcus Vinicius Bonfim

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  5. Meu caros,
    Concordo com vocês. Acho que aos poucos os grandes institutos estão perdendo a credibilidade. Eles precisam parar para balanço.
    Sem contar este frenesi de pesquisas eleitorais. Para que um instituto fazem tantas? Inevitavelmente, a qualidade cai nesta escala...
    abraços
    Jairo

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  6. Legal, Jairo. Acho sua análise boa para sair um pouco dessas teorias da conspiração quanto aos resultados equivocados das pesquisas...
    Mas gostaria de saber qual é, precisamente, o defeito das pesquisas por cotas e qual a forma alternativa para sondagem de intenção de voto?

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  7. Jairo, gostei muito do seu comentário sobre a credibilidade dos institutos. Para que precisamos saber a 'intenção do voto' com tanta frequência? Não será melhor ter uma pesquisa bem feita em vez de ter um número fantasma todo dia? Espero que seja um aprendizado para reavaliar os métodos e concordo que para isso precisa-se de cientistas sociais.

    Mas o que me preocupa mais neste contexto é a qualidade do conteúdo das pesquisas, ou seja, a qualidade da campanha: O que os entrevistados podem avaliar? O que pode mudar a intenção de voto de um dia pro outro? A roupa da Dilma no debate da noite anterior?
    O que nos diz o fato dela considerar "o segundo turno uma grande oportunidade de apresentar os projetos (...)". Porque não o fizeram antes? Ou fizeram e eu não percebi? Será que mudar o slogan de campanha para o segundo turno vai ser a solução para Serra?


    Enfim, acho que temos que estudar mais detalhadamente (ou reler o que já foi dito) sobre a mais-valia e o prejuízo de tanto prognosticar, sobretudo no que refere ao "voto estratégico". (Na Alemanha, por exemplo, não tem segundo turno para o governo federal, mas tem a estratégia de garantir a entrada do parceiro de coalizão do partido desejado.) Aqui no Brasil - o meu n não é representativo - vejo muito voto estratégico para forçar um segundo turno. Estou enganada? Acho que com este frenesi de pesquisas corremos o risco de que as eleições pareçam um jogo e que a intenção de voto pareça uma coisa ligeira que pode ser mudada qualquer hora.

    Abraços,
    Julia

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  8. Sei que há diferenças entre Brasil e França; entre as condições da população aqui e lá; entre os institutos de pesquisa dos dois países... mas...

    Os caras com entrevistas por telefone (insisto, há diferenças) conseguem bons resultados. Ex.:

    1º turno

    Pesquisa do Ipsos/Dell Resultado final
    N. Sarkozy 30,8 % 31,1 %
    S. Royal 25,2 % 25,8 %
    F. Bayrou 19 % 18,5 %
    JM. LePen : 10,8 % 10,4 %

    2º turno
    Pesquisa do Ipsos/Dell Resultado final
    N. Sakorkozy 53 % 53,06 %
    S. Royal 47 % 46,94 %

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  9. Júlio,
    Para ser justo: os institutos de pesquisa da França, em geral, usam pesquisa por quota.
    Não sei se é o caso do IPSOS.
    abs,
    Jairo

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  10. Aqui tem uma coisa bem interessante sobre as pesquisas eleitorais: http://bayesruleskishtables.blogspot.com/2010/10/incoerencia-das-margens-de-erro-nas.html

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